A grande figura humana do eminente sacerdote, evolucionista,
cientista e sábio Pierre Teilhard de Chardin foi por nós escolhida para o primeiro
contato projetado. De sua obra Le Phénoméne Humain são as citações seguintes:
"Établir autour de l'Homme, choisi pour centre, un
entre cuhérent entre conséquents et antécédents; découvrir, entre éléments de
l'Univers, non point un système de relations ontologiques et causales, mais une fui
expérimentale de récurrence exprimant leur apparition succéssive au cours du
Temps: voilà, et voilà Simplement, ce que j'ai essayé de faire."
E mais adiante:
"Comme il arrive aux méridiens à l'approche du Pôle,
Science, Philosofie et Religion convergent nécessairement au voisinage du Tout. Elles
convergent, je dis bien; mais sans se confontlre, et sans cesser, jusqu'au bout,
tl'attaquer le Réel sous angles et à des plans différents.
Prosseguindo:
"Deux options primordiales je tiens à faire remarquer
s'ajoutent l'une à l'autre - pour supporter tous les développements. La première est le
primat accordé au psychique et à la Pensée dons l'Étoffe de l'Univers. Et la seconde
est la valeur 'biologique' attribuée au Fait Social autour de nous."
E ainda
"Prééminente signification de l'Homrne dons la Nature et
nature organique de l'Humanité: deux hypothèses que on peut essayer de refuser au
départ; mais sans lesqueles je ne vois pos qu'on puisse donner une représentation
cohérente et totale du Phénomène Humain."
"L'Homrne, non point le centre statique du Monde - comme on
l'a cru pour longtemps - maisl'axe et flèche de l'Évolution - ce qui est plus
beau."
O homem é fundamentalmente ser. A partir de seu ser ontológico,
passa a existir. Neste processo de sua existência, relaciona-se como universo que o
circunda. O sentido ontológico tem um conteúdo bipolarizante: tanto de cada ser
particular, de cada pessoa, como da espécie humana, numa relação de simultaneidade
entre si, essencial, de ambos os
aspectos aparentemente separados. Esta mediação em movimento se desenrola ao nível de
sua consciência, entendida aqui no seu significado filosófico, e não freudiano. É,
portanto, a característica fundamental da condição humana, a possibilitar-lhe suas
relações coma cosmos e detonadora do processo histórico. É a partir dessa relação
fundamental entre consciência e mundo que se desenvolvem, em processo evolutivo, as
demais causalidades que, desde os primórdios até a etapa atual, vêm emergindo e
interagindo entre si, em espiral crescente, no processamento da história atual, na
interpretação da passada e no vislumbrar da futura.
Até novos possíveis fatores, hoje em potencial, poderem também
ter sua emergência. Efetivamente, trata-se de um movimento gigantesco.
O homem, ser consciente, vê o universo. À medida que com ele se relaciona, adquire
em processo a sua análise. O cosmos é-lhe objetivo na dimensão em que tem sua
existência estruturada em leis diversas, independentemente da consciência humana. Tal
processo é o conhecimento. Evolutivo: em movimento permanente para sínteses mais altas.
Dialético: nesta relação consciência-mundo, cuja expressão magna é a sua liberdade,
daí resultando a gradativa incorporação da objetividade à subjetividade humana, isto
é, ao seu interior. Histórico: limitado ao Espaço, Tempo. Obtida pelos órgãos dos
sentidos e interpretada em seu sistema nervoso central superior. Superando o momento desta
elaboração, retorna ao mundo objetivo sob a forma de ação, numa tensão constante
entre a liberdade e o mundo. A consciência histórica é a síntese dialética de todos
esses momentos entre si.
Entretanto, há outro movimento das consciências entre si. Tendo
o mundo como mediação, elas se comunicam, estabelecendo o relacionamento dos homens,
cuja essência se processa ao nível das subjetividades, isto é, no interior das pessoas,
inteirando-as ao nível de humanidade. O relacionamento médico-paciente é uma forma
particular do mesmo. Completam-se, destarte, as bases do processo. Adendos seus
desdobramentos existenciais.
Em sua visão do passado, a consciência humana se possibilita
uma reflexão acerca das origens, construindo e reconstruindo, incessante e
laboriosamente, a existência passada, ao nível dos movimentos de comunicação entre
consciências e entre consciência e mundo. Escreve, assim, a História. Em amplo
exercício da sua liberdade, encontra o universo em movimento, isto é, a sua
organização, entendida esta em seu sentido evolutivo: "do mais simples ao mais
complexo".
Ainda pela sua eminente expressividade, que é a sua liberdade,
à consciência humana é dada a condição do encontro com este universo em movimento.
Ela desvenda historicamente os seus meandros. Chega ao átomo, às leis fisico-quimicas da
matéria. Desvenda a Pré-Vida. Conceitua suas ligações na estruturação de moléculas
simples, e destas às mais complexas, até que, entendendo-se sua complexidade no
"sentido de funções mais diversificadas", possibilitem a emergência das
primeiras formas de Vida. Estas, inicialmente rudimentares, e permanentemente aglutinadas
pela energia interior de seus componentes, ou "afinidades químicas", prosseguem
nesse movimento, inimaginável mas perceptível, alcançando nesse processo formas mais
complexas de vida. As ciências paleontológicas, geológicas e antropológicas explodem,
a cada instante, em novos conhecimentos sobre os infindáveis processos específicos, das
mais diferentes formas de vida que vão aflorando e acabam por demonstrar que, em sua
forma mais complexificada de vida animal, há o momento em que o movimento da matéria
nervosa, aglutinada por sua energia interna e interligada com outras formas teciduais da
vida, faz emergir "o passo da reflexão" dentro dela. É a emergência da
consciência no interior desta incomensurável organização material viva.
A vida tomando-se consciente, eis o fato novo.
Em sua visão do passado ainda, ampliando este processo,
ocorre-lhe a reflexão sobre a causa inicial.
Se todo o conhecimento é potencialmente alcançável, e a
reflexão científica o vem demonstrando, ao nível do micro e do macrocosmos, parece
lógico que a exigência última da racionalidade humana seja a de discutir a origem do
Ser.
Há os que negam esta posição, em face de que o conhecimento
objetivo não teve à disposição, até hoje, um instrumental metodológico adequado para
atingir esta causa inicial. Então, se ela não pode ser cientificamente demonstrada, não
haveria sentido em sua perquirição. É a posição do Racionalismo e do Agnosticismo.
Seus fundamentos estão em Emmanuel Kant (Critica da Razão Pura e Critica da Razão
Prática).
Por outro lado, há os que afirmam a validade desta posição. Na
ausência de provas científicas, aceitam colocar a Razão Humana, sem a experimentação,
para refletir logicamente sobre o tema ontológico.
Emergem, assim, as concepções panteístas, interpretando a causa primeira dentro do
mundo. É a eternidade do movimento. Karl Marx, Friederich Engels, Jean-Paul Sartre,
Bertrand Russel e Jacques Monod podem ser citados como as mais vivas expressões, nos
séculos XIX e XX, desse panteísmo, o qual, aceitando, mas também não provando, crê
numa eternidade: na imanência absoluta do movimento.
Surgem, também, os que reconhecem uma causa primeira
transcendente. São os deístas. Para eles, o eterno transcende o universo, ultrapassando
as dimensões do Espaço-Tempo. O movimento não é mais o fundamento exclusivo do Mundo.
Esta visão pode convergir no Universo de Einstein.
Todavia, nos deísmos há outras opções. De um lado estão os
que concebem o primeiro principio como impessoal e energético, do qual sai, riam
partículas, "as mônadas", as quais "desceriam" ao Universo para
constitui-lo. Cada ser, cada homem. O objetivo final, segundo esta concepção, seria o
retorno, o mais rápido possível, do ser á causa inicial. Nesse movimento constante de
vai-e-vem não há criação, não aparece o novo. Há, sim, um fluxo permanente de saída
e de chegada, a partir da causa primeira, trazendo como conseqüência a idéia do
Universo-degradação. O Eterno Retorno é a base das filosofias reencarnacionistas. A
Reencarnação, a lei do Kharma e o Deus impessoal são as marcas dos Hinduísmos dos
Upanhishads, do Budismo, do Confucionismo. Também em Platão e Plotino elas se revelam. E
se concretizam em Spinoza e nos fenomenólogos do século XIX Fichte, Husserl,
Dilthey).
E, doutro lado, chegamos aos que concebem o Eterno Transcendente
como pessoa. Em decorrência, Deus é pessoal e o Mundo, um movimento em permanente
criação e evolução. Cada ser que emerge é o novo, advindo do ser que o antecede. O
movimento é, então, uma gênese. Esta visão permite conceber relações pessoais das
consciências entre si, bem como com a Consciência Suprema Pessoal. Esta visão já
aflora em Sócrates, desabrocha em Aristóteles, e se clareia no Judaísmo e no
Cristianismo, estes os seus exemplos mais marcantes.
Consciência de si, consciência para si, consciência do outro e
para o outro, eis, em resumo, o processo fundamental do desenvolvimento da consciência
histórica. Evidentemente, há muito mais a esclarecer quanto a aspectos específicos
deste processo, em relação ao já formidável volume de conhecimentos estabelecidos. É
o grande desafio do Universo á consciência. Mas ela já interpreta muitos fatos e os
interliga numa sucessão cada vez mais coerente de idéias. Há já um esboço de
sistematização: a Teoria da Evolução. A consciência humana analisando todo um
passado, na tentativa de alcançar o primeiro momento do Tempo. É o seu potencial se
transformando em ato. Ou a frutificação dos talentos.
E, assim, ela vê o Presente. Interpreta cada vez melhor e mais
os conhecimentos atuais. Reafirma as verdades, reconhece os erros. Outras vezes não os
reconhece, e então simula. Isto se exterioriza, em seus vários aspectos, num movimento
de contradições. O conhecimento do Presente aperfeiçoa o do Passado e prepara o do
Futuro. Há um processo interligado. No passo da reflexão, que é conscientização e,
portanto, hominização da Vida, daquela matéria altamente organizada e complexificada, a
Consciência inicia a sua história. Isto é, emerge no processo evolutivo como o fato
novo. Assim, passa a influir, como tal, nesse processo, conceituando-o. É a História
humana se iniciando. Esta fase ainda permanece obscura para a consciência presente, em
múltiplas nuances.
Mas há que considerar um elemento transformador nisso tudo: o
mundo se transformando em seu movimento, a consciência se transformando para melhor
conhecê-lo, e ela transformando este mundo objetivo. O homem é, então, simultaneamente
intérprete e ator na evolução. A ação transformadora se desenrola em um movimento
evolutivo a partir das relações entre o homem e a natureza objetiva que o circunda. O
homem a interpreta pelo conhecimento e a transforma pelo trabalho. Nascem as forças
produtivas e as relações de produção, as quais assumem seus moldes específicos nas
diferentes eras da História, até os tempos atuais.
A natureza é transformada para se tornar adequada às
necessidades humanas: natureza humanizada. São de dominação essas relações. O homem
domina a natureza e a Consciência passa a dirigir também a Evolução. Isto é, como
mais um fator fundamental na sua causalidade.
É o poeta Geraldo Vandré quem diz:
"Esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
não espera acontecer."
As consciências podem se relacionar também entre si. Para cada
ser consciente, as outras consciências lhe são objetivas. Há, outrossim, uma
subjetividade em cada uma. E, entre elas, a indispensável mediação do mundo objetivo.
Emerge o processo de comunicação das consciências, o qual, na visão de pessoa, e
expressando a liberdade humana, deve se fazer em termos de reconhecimento mútuo, isto é,
de sujeito para sujeito.
E, em se tratando do ser livre, já a contingência desse fenômeno assume uma relação
de dominação. O homem domina o homem e a relação se torna sujeito-objeto, uma
distorção de finalidade, a qual o tira de sua verdadeira condição humana e o situa
noutra, estranha a si mesmo. É a alienação humana, criteriosamente descrita por Marx em
Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Tal processo chega á nossa época com várias
transformações, sem que o seu mecanismo básico tenha sido destruído. Eis o grande
desafio para as gerações atuais.
Na voz do teólogo Pedro Casaldàliga encontramos as
palavras:
"Deus está doente na carne do homem.
E esta bata branca, com sangue de Pobre,
Só se lava em vida, não se lava em morte."
A característica essencial da objetivação humana reside,
portanto, nas pressões sobre sua liberdade. Mas se iludem aqueles que, pressionando-a,
pensam ter acabado com ela. A liberdade se retrai e, mais adiante, reage com força
característica e impulsiona novamente o movimento para frente.Quanto mais pressionada,
mais intensa é a reação de sua mola propulsora.
Na poesia de Chico Buarque de Holanda, encontramos a voz desta
liberdade:
"Apesar de você, amanhã há de ser outro dia."
O afrontamento do grande desafio contra a alienação prossegue.
Na dependência de que as consciências o aceitem e o encarem, nele se engajem e
modifiquem o seu curso. Enquanto isso não ocorre, a omissão permanece. E a alienação
também.
Exclama o Pe. Jean Lacroix, em Marxisme, Existentialisme et Personnalisme:
"Le bourgeois est contentement, donc inconscience. Il est
aliene sans le savoir."
Tarefa monumental aguarda, assim, as presentes e futuras
gerações, pois as profundezas da alienação atingem os meandros da espécie humana. A
ponto de Emmanuel Mounier declarar, em Le Personnalisme:
"Le Marxisme a raison d'affirmer que Ia fim de la misère
matérielle c'est la fin d'une aliénation et une étape nécessaire au développement de
l'humanité. Mais elle n'est pas la fin de toute l'aliénation, même au niveau de la
nature."
Sem a participação conscientemente admitida, jamais chegaremos
ao termo deste magno combate. E a consideração de que a consciência seja simplesmente
um epifenômeno da Matéria e da Vida implica este risco.
E ela vê o Futuro. Isto exige, basicamente, um posicionamento
acerca do Fim da História, o qual é filosófico e, como tal, encerra um aspecto
messiânico. Numa reflexão de criação de projetos que modifiquem o movimento objetivo
do Mundo. E se tornando, também, este movimento, na medida em que o transforma.
Posicionando-se em relação à História, há os que a aceitam e
os que a negam. Estes, místicos e mitológicos, dela se afastando, vivem exclusivamente
para seu objetivo, tentando as soluções dentro dessa perspectiva. Extrapolam sobre dados
isolados da realidade do mundo. Fadados ao insucesso, por não se interligarem com o Real.
Quanto aos místicos que se alienam da realidade objetiva, sua validade reside em
desenvolverem uma experiência pessoal de auto-educação. Porém sem o devido
engajamento.
Entretanto, há os que se engajam na História, entendendo-a como
uma sucessão de fatos isolados, sem ligação entre si. A História é, para eles, uma
simples sucessão de acontecimentos.
Todavia, há os que interpretam os mesmos fenômenos como
interligados entre si, pressupondo uma causalidade comum. A objetividade do Mundo
demonstra que não há efeito sem causa. Dentro dessa perspectiva, ainda há opções, que
se vão desdobrando. Desde os que não admitem um sentido essencial para esses fatos
históricos até os que o aceitam.
A concepção existencialista do Mundo é o mais marcante evento
concreto para quem concebe a liberdade como um acidente. A História não pode, então,
ser tecida em torno de um sentido essencial. O Acaso é o seu primum movens. E o Nada a
sua categoria absoluta.
E há os que reconhecem um sentido essencial para toda a
Existência do Ser, da qual a História humana é uma etapa decisiva mas não a
Totalidade.
O desdobramento interpretativo segue ainda seu movimento,
diversificando-se entre a lmanência e a Transcendência. É o Materialismo Filosófico,
que tudo concebe em função duma imanência absoluta. Reconhece a objetividade do mundo,
o movimento evolutivo libertador e crescente do homem. A ele é conferida a eternidade. A
natureza é intrinsecamente dialética, a matéria é o ser permanente e a consciência
uma categoria acidental, isto é, um epifenômeno. A dimensão de pessoa não é sua
essência, e o risco de a mesma se diluir no coletivo se evidencia.
A liberdade humana também se condiciona, social e politicamente,
na massificação e não no universo pessoal.
E, por fim, há os que entendem a História como um processo em
que o Mundo Real evolui fenomenologicamente, mas cujo movimento imanente busca uma
transcendência espácio-temporal. A interligação se estabelece pela comunicação das
consciências, de todo esse processo evolutivo, histórico-dialético. Há um sentido
essencial para o mesmo. A Consciência é o seu fundamento, com os condicionamentos que a
circundam e sobre ela tensionam. É o Universo Pessoal, seu grande objetivo
histórico.
E, assim, a Evolução se volta sobre si mesma, fazendo convergir
no homem o Passado, o Presente e o Futuro.
Na evolução da Vida, após o homem emerge o médico. Da visão
do passado pode-se inferir que a doença antecedeu a Medicina. O homem, inicialmente
sucumbido diante dela, passou a tentar dominá-la. Hospitais, medicamentos, procedimentos
cirúrgicos, técnicas diagnósticas, enfermagem, formação e ensino médico,
laboratórios, todos têm a sua história. Desde seu surgimento na sociedade humana até
suas influências sobre fases mais atuais, convergindo para um objetivo: a pessoa
humana.
O relacionamento médico-paciente é uma forma de comunicação
de consciências. Seu ponto de encontro é o sofrimento. Há explicações
lógico-científicas para ele, em aspectos parciais. Porém, a totalidade da servidão
humana possui uma conotação mística, no sentido em que a entende São João da Cruz. O
sofrimento humano é, por conseguinte, o contato entre a humanidade e o médico.
O médico, ao contatar com o doente, deve ter em mente a sua
dimensão total. Não somente enxergar nele as facetas inúmeras da doença, mas,
outrossim, todos os graus de alienação a que ele está submetido pela sociedade
contemporânea. Pois, consciente ou inconscientemente, a abordagem médica implica sempre
o seu envolvimento.
Assim, a recusa e a aceitação do sofrimento se unem, nesta
relação, de um modo antitético e ambivalente. A recusa se manifesta na busca, pelo
homem, de soluções para problemas até então insolúveis. Nos dias de hoje, o exemplo
mais típico é o das neoplasias. Desde os seus primórdios, o Homem vem se defrontando
com a doença, seu padecimento. E é na sua recusa que surge a motivação para
suplantá-lo. A recusa implica, portanto, a possibilitação da pesquisa do problema, até
então insolúvel, bem como a elaboração trabalhosa de sua solução.
E é Teilhard de Chardin quem define, em Ciência e Cristo:
"A cruz não é apenas a símbolo da expiação, mas também
o sinal do crescimento através da dor."
A recusa e a aceitação do sofrimento são dois momentos de uma
só realidade em transformação.
A abordagem do ser padecente exige a possibilidade da profunda
identificação entre o médico e o doente, como também a sua recusa. Nesta posição,
embora superdotado de todos os conhecimentos possíveis até aquele determinado momento
histórico, o médico jamais ultrapassará os limites da objetivação do enferma.
Aborda-o de fora e não o penetra, nem o sensibiliza. Mas, pela ultrapassagem dessa
barreira, poderá colocar-se nas profundezas de uma natureza humana. Então,
"estranhas energias" se desprendem, com caráter libertador. E os ditos
"milagres médicos" passam a acontecer, como decorrência do desapego do
médico.
O Pe. Teilhard ressalta:
"O desapego não consiste exatamente em desprezar e
rejeitar, mas em atravessar e sublimar." (L'Énergie Humanine).
O processo do relacionamento médico-paciente constituindo-se do
interior para o interior de cada ser, concretizando-se numa união criadora, numa síntese
de duas individualidades e possibilitando a emergência do novo. A solução do que vinha
sendo, até então, insolúvel, brota, floresce e frutifica. A doença se torna curável.
Belo retrato deste quadro encontra-se em Geraldo Vandré:
"Certezas e esperanças prá trocar
Por dores e tristezas que, bem sei, Um dia ainda vão findar."
A margem do sofrimento humano se reduziu. E a humanidade, menos
padecente, estará mais feliz.
Entretanto, ao lado da beleza, novos problemas, interrogações e
posições vão surgindo para o médico. Ele não é absoluto. É também um ser
histórico. O sofrimento inevitável lhe cai em face, incessantemente. Ele, covardemente,
pode afastar o cálice.
Ou, corajosamente, aceitá-lo. E prosseguir em sua espinhosa e
sublime missão, afrontando os desafios. A morte inevitável e a doença incurável o
levam à resignação, pois o conhecimento científico não é absoluto. Justamente por
ser dialético e histórico, não pode proporcionar ao médico soluções definitivas. E a
inevitabilidade dessa condição conduz o médico a uma ambigüidade: ao mesmo tempo que
não pode solucionar tudo, não pode se afastar do problema. O movimento entre a cura e o
sofrimento inevitável, ou o mal incurável, é permanente. De tese-antítese, buscando
sínteses superiores e se desdobrando incessantemente em novas etapas, construindo
simultaneamente, aos poucos, um sedimentado edifício de toda esta experiência humana,
que, em resumo, é a Medicina.
E a figura do médico, neste processo, pode ser resumida por
Nothnagel, professor de Clínica Médica em Viena, no inicio do século:
"O médico raramente cura, muitas vezes alivia, mas sempre
consola.''
O médico é a síntese da humanidade. Nele convergem as
características da Ciência, os aspectos mitológicos do inconsciente coletivo, o
sofrimento humano, as problemáticas políticas e sociais, a poesia, a dor e a beleza do
mundo. Equivocam-se os que supõem que ele possa escapar disso e viver um mundo apenas
seu. Está na raiz da Medicina a ligação essencial com o humano. E esse humano é tudo
isso. E muito rituais, até o agora desconhecido para nós, como bem a propósito
assinalava o professor Alexis Carrel, Prêmio Nobel de Medicina em1912, em O Homem, Este
Desconhecido.
A opção é bem clara. Ou a recusamos: então o paciente é
visto tecnocraticamente. "Les hommes contre l'humain", proclamava Gabriel
Marcel, em voz alta, criticando essa ótica. Ou a aceitamos: então assumi, mas o todo
doente, cada doente, todos os doentes. E a compreensão das múltiplas dimensões dos
pacientes, que fez Letamendi pronunciar:
"Quem pensa que só Medicina sabe, nem Medicina sabe",
se torna real.
O homem é a unidade. Não um sistema, ou um aparelho. A
proclamação de Louis Ramond, em Lições de Clínica Médica Prática, é, a propósito,
bastante elucidativa:
"Neste século de especialização sem misericórdia, tem-se
facilmente a tendência de esquecer que as especialidades são criações do espírito
humano.
Necessárias, é verdade, pela amplitude dos conhecimentos
médicos e pela delicadeza das técnicas, mas que a natureza não conhece. O corpo humano
é um, e o olho, a orelha, as vias urinárias e as vias digestivas não têm nenhuma
autonomia em face da doença.''
Assumir isso é uma opção gigantesca. Desde reconhecer o outro
como sujeito até a si mesmo como limitado. Sem a ilusão de chegar um dia ao conhecimento
total, ilusão que Goethe retratou muito bem em O Fausto, o médico que vendeu sua alma a
Mefistófeles em troca do saber absoluto. E que, com isso, saindo da condição humana,
caiu na desesperança total e se destruiu.
O caminho que podemos sugerir é diverso: o de buscar,
incessantemente, o aprofundamento da condição humana. Então podemos dizer, com Blaise
Pascal:
"Não censurar, não louvar a criatura humana, mas, entre
gerridos, buscá-la."
Seu aperfeiçoamento, seu crescimento, assumindo-a radicalmente,
até as últimas conseqüências, cujo limite não se pode divisar a priori, bem como até
o extremo que a "energia humana" de cada ser o possibilite. Ora, se cada um de
nós não pode tornar-se o absoluto, a via da comunicação entre consciências, em termos
de reconhecimento, é a única possível que respeite as características de
humanidade.
O Perdão implica o envolvimento profundo da existência de um
médico. Sua ocorrência verdadeira pressupõe fundamentalmente dois seres: o que perdoa e
o que pede perdão. Houve, alhures, quem definisse o Amor como "jamais ter que pedir
perdão". Sem dúvida, este é o estágio da perfeição. Porém, ao nível do
imperfeito, há que pedir perdão. É, também, uma das muitas maneiras de amar.
Pressupõe fundamentalmente uma espiritualidade muito profunda, uma autoconsciência
determinada. O Ser que pede perdão revela uma atitude de desapego. O Ser que o concede,
também. É uma profunda forma de diálogo humano, trabalhosa, difícil, penosa. O perdão
é uma expressão da liberdade do ser, pois, em meio a um clima enorme de dificuldade e de
dissociação que esteja ocorrendo em um relacionamento humano, ele, e somente ele,
poderá efetivamente mudar o curso desse movimento, partindo de um estado de alienação
para o de um encontro de consciências. Se não mais "ter que pedir perdão" é
a paz do amor, ter que pedir perdão é a redenção no amor. Entre quem o pede e quem o
concede existe uma união criadora, conduzindo dois seres à retomada humana no movimento
evolutivo da vida.
"Tanto amor para amar, de que a gente nem sabe."
(Carlos Lira e Vinícius de Morais).
O seu não reconhecimento radical conduz ás abomináveis formas
de tortura. A sua aceitação como valor fundamental da existência humana implica
reconhecer um Absoluto, Pessoal, com sua eterna competência em concedê-lo.
A Morte é a suprema alienação para o homem, em sua existência
histórica. É uma constante no Universo, como antítese permanente da Existência. O
conceito de existência é mais amplo que o de vida. Esta é uma forma de existência que
emergiu num determinado período da evolução do mundo, quando já existiam milhares de
fenômenos materiais preparando-a.
E cada um desses seres que antecederam a vida no tempo, que
tiveram sua história e seu desaparecimento como tal, tiveram a sua morte. Mesmo que se
tenham transformado, como ser individual, tiveram a sua morte. A Morte existe, portanto,
como condição fundamental da permanência da espécie. Ela é a manifestação do Nada,
como categoria filosófica, a partir do momento em que o Ser passa a existir. Ao nível da
Vida, ela continua existindo, sob formas diversas, porém conservando a essência do
desaparecimento do ser particular. Ao nível do humano, ela se torna mais complexa,
conferindo com a maior complexificação do próprio Homo sapiens. Eis um quadro sumário
da Morte, com a qual, mais cedo ou mais tarde, todos nos defrontaremos. E o médico
encontra-o a cada momento de seu ser.
Encarada pelo ângulo da suprema alienação, a questão é saber
se a morte biológica do homem é o fim do ser individual, ou não. Na concepção
materialista, é o fim de toda a dimensão humana da pessoa. O Amor está fadado, então,
a ser vencido pela morte do ser. Ou o ser supera a morte e o Amor a vence - é a outra
dimensão. Nesta há uma ultrapassagem para algo que a consciência histórica não
alcança, mas que a lógica metafísica pode pressupor. As opções são filosóficas, em
face de o conhecimento científico não ter ainda elucidado este problema.
E ao médico, mais do que aos demais, não resta alternativa, a
não ser a de uma opção filosófica, diante de um problema que para ele, principalmente,
é uma rotina. Sentida sem uma definição, a Morte desencadeia o temor, pais esta é a
reação do homem diante do que lhe é desconhecido. Reação que fabrica, então, em sua
mente, mitologias diversas. Por outro lado, se a incerteza científica é iniludível, uma
opção filosófica define melhor o posicionamento de cada um. Visão escolástica ou
visão aberta: eis a opção de cada consciência.
E, então, poderemos dizer com Morris West:
"Não fiquei realmente com medo. Compreendo, agora, que a
morte é um evento logo esquecido, logo terminado. Mas ser um homem é um grande
evento..."
É o convite claro para a aceitação conseqüente da condição
humana, na qual a Vida prevalece.
A liberdade humana, não só respeitada, mas em crescimento,
desenvolvendo o pensamento. O diálogo, como conseqüência da necessidade da troca das
informações científicas, em sentido amplo, tanto na pesquisa como no ensino e no trato
com o paciente, disto resulta o verdadeiro espírito universitário, no qual não há
lugar para o pedantismo intelectual dos que se iludem com sua própria auto-suficiência.
William Osler dizia:
"Uma grande Universidade tem dupla função: ensinar e
pensar." Isto só se torna possível á medida que os componentes humanos
universitários se capacitem e atuem numa profunda atitude de diálogo humano.
A sistematização de uma sociedade humana em que estas
posições se concretizem na atividade econômica, isto é, na produção de sua
infra-estrutura; na política, processo de possibilitação da convivência humana e da
realização de projetos; na social, onde os seres humanos se reconheçam, de consciência
a consciência, pela mediação do mundo; na educação, onde o crescimento da
consciência crítica diminua os condicionamentos do inconsciente mitológico na
exteriorização do comportamento. E permita que não mais seja, então, preciso dizer o
que se afirma hoje, parodiando Yung, em O Homem Moderno em Busca de uma Alma.'
"Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome,
nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem, o maior perigo para a Humanidade,
parque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente
mais devastadoras que as maiores catástrofes naturais."
Então é preciso possibilitar:
- a recusa radical das relações de dominação entre os homens, as
quais deverão ser de sujeito para sujeito;
- a passagem da poder discricionário para o poder democrático,
este entendido como participação consciente da cidadania;
- da dominação de uma nação sobre outra para a inter-relação
entre as nações; contra os imperialismos;
- da dominação do homem sobre a mulher, e vice-versa, para uma
dialética do humano, de sujeito para sujeito;
- da educação impositiva para uma educação de diálogo;
- da pesquisa visando fortalecer o poder para a pesquisa que liberte
o Homem;
- a Universidade abstrata para a concreta, voltada para as
realidades nacionais e regionais;
- da cultura importada para a cultura do povo;
- da sexualidade repressiva e libertina, ambas objetivantes, para a
do reconhecimento humano;
- das mitologias para o conhecimento lógico-científico;
- dos privilégios às soluções comunitárias;
- das ortodoxias fechadas, que levam á morte, para a abertura da
vida;
- da recusa da visão conspirativa para uma História sem
dominações;
- a síntese dialética entre o racional e o emocional dentro de
cada pessoa;
- a produção econômica do alimento, do remédio, do vestuário e
da habitação dirigida para o faminto, o doente, o despido e o despojado, os quais, na
andança humana, estão juntos.
Então, com Castro Alves podemos cantar:
Da Escravidão...
"Oh! Cristo!
Embalde morreste sobre um monte,
Pois teu sangue não lavou da minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje o são, por fado adverso,
Meus filhos alimária do universo
E eu, pasto universal."
(Vozes d'África)