A Umbanda na visão de um eterno aprendiz
 


 

Estamparia artesanal

Marcio Bamberg Heahunter


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Rio de Janeiro,
Brasil

 

 

Um momento para reflexão

O sentido de comunidade na Umbanda

Na grande maioria das espécies de seres vivos sobre a face deste planeta, notamos nitidamente e com muitos exemplos claros que de alguma forma, seja por fatores climáticos, por fatores de soberania de um grupo sobre a outra espécie e na grande maioria, pela sobrevivência, pelo alimento, se reúnem em grupos, cardumes, enxames, matilhas, trios ou duplas e raras espécies andam sozinhas.

A espécie humana não poderia ser diferente. Observamos diversos grupos étnicos, sociais, culturais, e religiosos. Seja pela sobrevivência, pela busca de alimento ou por fatores mais diversos, até mesmo esportivos, ele se agrupa para satisfazer seus anseios e através do grupo, pelo grupo, luta pelos mesmos ideais em comum. Mencionei o fator religião como sendo um dos modos de aglutinação humano, como é de conhecimento de todos, a espécie humana, desde os mais remotos tempos, reverência seus deuses e panteões, através dos elementos naturais ou caracterizados em seres humanos, como a cultura grega, romana, nórdica, egípcia e tantas outras, na qual as africanas também se inclui. Através dos elementos da natureza, fogo, água, terra, ar, criaram estas culturas, personas representando as forças e elementos que regem toda esta grande engrenagem chamada vida. Não podemos nos esquecer dos índios, em especial do índio sul americano. Tendo em comum divindades "in persona" , criou o homem, com a orientação advinda destas forças, cultos próprios, rituais, para que homens e mulheres com o mesmo senso e objetivos de evolução, pudessem dentro de seu culto evoluir e construir uma comunidade.

Vivemos em tempos em que as novidades de comunicação nos surpreendem a cada dia. Quem diria que a vinte anos atrás estaríamos trocando imagens pela net, conversando com pessoas em outros continentes? Eera difícil para concebermos tal coisa. Mesmo com a chamada globalização, com o advento da chamada "terceira onda", a humanidade ainda continua a se reunir em grupos e defender com pulso e até com o uso da força seus grupos.

Aqui neste fórum, nos reunimos e trocamos idéias, vivências, emitimos opiniões, conselhos, brigamos com intrusos que entram para difamar e destorcer nossas idéias, tudo em nome de um grupo. Um grupo chamado umbanda.

Umbanda.tão nova mas ao mesmo tempo tão velha, sincretizada com valores milenares, que vão desde os ensinamentos e doutrinas de monges asiáticos, passa pelo oriente médio, traz elementos da Europa e junto com o tempero africano, isto tudo se juntou a este novo país, fazendo com que suas raízes indígenas formassem esta "sopa" chamada umbanda. Dentro dos terreiros, hoje em dia, formamos grupos, com os mais diversos tipos sociais, tipos físicos, sexos, preferências sexuais, enfim, humanos.É certo e lógico que mesmo com tantas diferenças descritas, nos reunimos em prol de uma religião, um ensinamento, um culto, um rito, um objetivo comum, traçado por aqueles que chamamos carinhosamente de guias ou entidades. Em determinado dia, assim escolhido pela hierarquia estabelecida, seja espiritual ou humana, nos reunimos para reverenciar nossos orixás, e fazendo uso desta força que é nos permitida, tentamos também beneficiar a aqueles que procuram o grupo ( terreiro) para curar suas mazelas. É muito coerente dizer, que mesmo em grupos reunidos, existem divergências e contradições, basta dizer neste grupo de debate. Em terreiros, não poderia ser diferente. Existem várias formas de opiniões, algumas razoáveis, outras com muito fundamento e outras somente a nível de tumultuar. Estes que procuram tumultuar normalmente o grupo se encarrega se excluir, para que o sentido de comunidade não seja quebrado.

Mesmo em grupos grandes sempre existiram células, pequenos agrupamentos, nos quais por afinidade, as amizades se tornam mais evidentes .Ë natural que, um novo membro que entra no chamado grande grupo, ele fique, digamos um pouco perdido.Com o tempo, por afinidade ele acabará se enganjando em algum destes grupos. A função de um grupo é ou deveria ser, de proteger seus afilhados, e de manter um nível de simpatia homogênea a todos, sem descriminação. Observo que, em grupos religiosos distintos, quando um membro seu, por um motivo qualquer, seja saúde, problemas financeiros e mesmo uma certa desilusão com o culto, ele é procurado pelo grupo a fim de restabelecer e fortalecer seu membro desgarrado. Cito como exemplo grupos católicos, evangélicos que fazem muito bem o papel de aglutinamento social. Mais de que somente se reunirem em dias de cultos, mantêm contato constante entre eles, se preocupando se um fiel participante de sua comunidade está bem ou mal. Na umbanda, ainda somos falhos no sentido de comunidade. Nos reunimos somente em dias de giras, e em raros grupos e terreiros, se mantêm um sentido de comunidade . Na umbanda normalmente, e infelizmente, muitos iniciantes são tratados com soberbia, com falta de atenção .Os mais experientes e mais velhos dentro do terreiro ( tempo de umbanda e não idade), acabam tratando os novatos como calouros de universidade, com o mínimo de atenção, principalmente se ele for de uma classe social mais pobre. Pode parecer estranho numa religião que prega tanto o carinho pelos negros, mas o racismo e o preconceito é evidente em alguns terreiros. É certo que, seria incoerente querer com que o grupo pudesse resolver o problema financeiro de determinada pessoa do agrupamento, mas o mínimo de atenção com esta pessoa que, muitas vezes se afasta do convívio, sem ao menos dizer o porque, deveria ser dada pelo grupo. Achamos que, pelo fato de irmos ao um terreiro, recebermos uma entidade e atendermos algumas pessoas, estamos fazendo muito bem nosso papel dentro da comunidade e perante a sociedade externa.

Seria incoerente dizer que, teríamos que ficar incorporados 24 horas por dia e tentando salvar o mundo. Seria difícil. Por isso, devemos começar não tentando salvar o mundo, mas quem sabe tentando entender as amarguras de nossos irmãos de fé. Saber ouvir, saber aconselhar, visitar o lar deles não somente em dia de festas ou de churrascos, mas sim naquele período em que ele está desempregado, com problemas de saúde e tantos outros. Devemos respeitar o livre arbítrio de cada um e não querer também opinar em assuntos em que não fomos chamados. Manter a coerência sempre. Temos que lembrar que, somos humanos. Acima ou abaixo de camadas de evolução mas somos humanos e um humano sente frio, calor, precisa comer, precisa de carinho, precisa de um lar, de emprego, escola ,enfim tudo o que precisamos para manter esta casca material em pé. Sem matéria boa, não temos trabalho espiritual. Recentemente em um debate e em certo desabafo de um ilustre participante deste fórum, ele relatava o descaso com que era tratado ao final das giras, que quando mais carecia de atenção para tirar suas dúvidas e procurava se aproximar dos mais velhos da casa, estes por pressa de ir para casa, ou por descaso mesmo, o ignoravam, isto é sentido de comunidade? Creio eu que não. Nosso sentido de comunidade dentro da umbanda é falho. Não basta ir ao terreiro e fazer caras de bom e de companheiro e ao encontrar um irmão de fé na rua, fazer muitas vezes que nem o percebeu.

A primeira coisa que imaginamos quando alguém deixa de ir as sessões é que este ficou magoado com algo, não quer mais saber de umbanda Raramente nos perguntamos se esta pessoa tinha combustível para ir ao terreiro, se não estava doente, dentro de nossa filosofia, nos esforçamos em buscar justificativas para o infortúnio do irmão de corrente. Rotulamos de karma, demanda, incapacidade profissional mas nos sentimos envergonhados de perguntar "você está bem? Você precisa de algo"? A espiritualidade está fazendo sua parte em todos os momentos, mas necessita que nos, humanos façamos a nossa. A fome, a doença não espera.

Raramente nos dias que não tem sessão poderíamos dizer que existe um espírito de sociedade unida. Quando obtermos uma sociedade de umbanda unida dentro do terreiro, ai sim, poderemos dizer, agora a nossa ajuda a creches, a asilos não será falsa. Aliás, podemos contar nos dedos os terreiros que fazem visitas a asilos, creches e que apadrinham crianças carentes, que precisam de coisas simples, desde um chinelo até um caderno. Temos que mostrar o caminho em nossa empreitada, não levar ninguém em nossas costas mas primeiro temos que achar o caminho que, quem sabe seja a nossa comunidade de irmãos dentro da umbanda Tratemos todos dentro do terreiro com cordialidade, com afeto, e até com coisas básicas tipo saber o nome do irmão. Mostrar a ele que você também passou pelas mesmas dúvidas e que você obteve resposta para passar a ele, para dar continuidade a comunidade. Procuremos nos aproximar, seja seu irmão preto, branco, mais velho, sorridente, sisudo .Vamos nos darmos as mãos. Umbanda é 24 horas por dia e não somente em horas de gira, uma vez por semana.

Não poderia de mencionar outro fato relevante dentro da comunidade de umbanda. Nós, participantes deste fórum, e internautas em geral, temos algo nas mãos que, ao longo da humanidade, ajudou lideres mundiais a construir países, destruir povos, construir povos, aglutinar nações e mesmo em pequenas localidades, lideres locais conseguem fazer com que a comunidade ande, tanto em sentido social como em sentido cultural. Chama-se informação. O que nos temos em mãos é um bem precioso. Será muito egoísmo de nossa parte se não passarmos adiante toda e qualquer informação advinda deste fórum aos demais participantes de nossos terreiros. Mesmo assuntos que para nos, parecem esdrúxulos ,para muitos de nossa comunidade, é muito importante. A troca de informação é necessária para o bem estar da comunidade. Informações advindas de outras fontes que não sejam somente aquelas que são passadas pelos chefes de terreiros não significa criar dogmas ou contradizer o ritual interno de cada terreiro, ou comunidade. Uma comunidade racional e democrática somente construímos com diálogo .sem isto, temos uma ditadura dentro da comunidade, e creio que nenhum dos babalorixás presentes nesta sala, ou participantes de terreiros se condicionem a uma ditadura. Temos o privilégio de ter tanta informação a mão. Passemos adiante.

Mesmo dentro deste grande contexto religioso da Umbanda, temos também células, chamadas de terreiro, cada uma destas células com suas diferenças aparentes ,com mais influência de determinada religião, ou pela formação do chefe da casa, mas de uma forma geral, o objetivo central da umbanda não se perdeu no tempo .Da mesma forma que padres pregam em uma paróquia de uma forma e outros em outras paróquias de outra forma, os chefes de terreiros também pregam e usam meios e palavras de formas diferenciadas, mas o objetivo final não é distorcido.

Vamos respeitar mais nossas diferenças. A humanidade anda devido a nossas diferenças. Alguns têm que empurrar, outros puxar, e outros ficam sentados encima do carro, mas anda. Imaginemos um campeonato de futebol com todos os times exatamente iguais, ou uma partida de futebol com os jogadores de ambos os times com exatamente as mesmas características. Iria terminar empatado sempre, sem contar que seria sem graça.

Creio eu, que seria importante dentro dos Terreiros abrirmos mais espaço para debates, informar e dar uma base não só de ritual aos iniciados mas também uma base histórica da umbanda, candomblé, cultos afros, influências de outras religiões e elementos formadores da umbanda, para que não deixemos tão às cegas os participantes do terreiro .Abrir a palavra para debates não será de forma alguma quebrar a autoridade do chefe da casa, e sim, muito pelo contrário .Mostrará a sua comunidade o porque que muitas vezes optou por direcionar o ritual de sua casa a forma que vêem sendo executado. Ajudaria a quebrar tabus, preconceitos, conversinhas desnecessárias, e suposições que muitas vezes levam um filho da casa a se afastar do convívio do grupo e da comunidade.

A informação é fator primordial para o aglutinamento de uma comunidade. Façamos bom uso dela.

Para terminar, lembro mais uma vez. Comunidade é respeito, carinho, ajuda, caridade .

Salve a Umbanda e saravá a todos!

Bom*Cumbeiro

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