
Justiça reconhece
legalidade de casamento na Umbanda
Porto Alegre - Em decisão inédita no País, a 8ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul reconheceu como legal um casamento realizado num centro de
umbanda. Com isso, a comerciária Gorete Catarina Dorneles Machado, de 42 anos, pode se
habilitar a receber a herança e a pensão previdenciária deixada pelo funcionário dos
Correios Renato Fernando Guedes, com quem viveu durante 14 anos, até a morte dele, em
1997. Ela disputa os benefícios com outra mulher, mãe de um filho de Guedes.
Gorete casou com Guedes no dia 12 de maio de 1983 no Centro de Umbanda Cacique Peri, em
Porto Alegre. O casal nunca efetuou o registro civil do matrimônio. Após a morte de
Guedes, a herança e a pensão foram requeridas por outra mulher que dizia ter tido união
estável com o funcionário dos Correios. Gorete apresentou a certidão de casamento
religioso concedida pela casa de umbanda como prova de sua relação com Guedes.
O relator da matéria, desembargador Rui Portanova, disse que a decisão reconhece os
direitos dos povos negros, seu jeito e sua cultura. O advogado de Gorete, Hélio Silva
Júnior, acredita que agora começa a ser formada a jurisprudência para uma
determinação constitucional que não era respeitada, a de que todas as religiões
merecem o mesmo respeito. "É uma vitória da Justiça, dos negros e das religiões
afro-brasileiras", comemorou.
O julgamento foi acompanhado por dezenas de umbandistas, que lotaram o saguão do oitavo
andar do Tribunal de Justiça e, emocionados, reverenciaram os orixás no mesmo local,
logo que souberam da decisão. Gorete, filha de oxum, chorou. "Pela nação
africana", afirmou várias vezes, referindo-se à vitória que acabara de conseguir.
Elder Ogliari Jornal O Estado de São
Paulo - Quinta-feira, 27 de junho de 2002
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