
Embranquecimento da Umbanda
O que há de mito e
verdade sobre o "embranquecimento" da Umbanda? A primeira vista, mais parece uma
espécie de boato que corre pelos terreiros sem que os adeptos da religião saibam
efetivamente a origem, a quem interessar, ou quais seriam os objetivos dessa hipótese?
"O povo aumenta, mas não inventa". Portanto, responder a essas questões vai
exigir uma pesquisa atenta sobre o processo de institucionalização e legitimação do
Movimento Umbandista ao longo do século XX
É verdade! Tentaram
"embranquecer" a Umbanda. Mas é igualmente verdadeiro que tentaram, antes,
"embranquecer" a população brasileira. Na segunda metade do século XIX, com o
fim do tráfico negreiro e a expansão da lavoura cafeeira para o oeste paulista,
buscou-se alternativas à mão de obra servil. A opção escolhida foi investir na vinda
de imigrantes europeus para trabalharem como assalariados. O historiador Thomas Skidmore
explica no livro "Preto no Branco Raça e Nacionalidade no Pensamento
Brasileiro", que o projeto migratório atenderia também ao desejo da aristocracia
imperial em "purificar" o sangue da povo, uma vez que o pensamento da época
pregava o superioridade da raça branca.
Na década de 1930, com o fim da
hegemonia da elite agrária e a implantação do Estado Novo, a ideologia vigente precisou
se adaptar ao projeto nacional-desenvolvimentista instaurado por Getúlio Vargas. O
caráter mestiço da população brasileira passou a ser valorizado, pois a viabilidade
sócio-econômica do Brasil decorreria, justamente, da existência de uma "democracia
racial" que inibiria a possibilidade de conflitos raciais, étnicos e culturais, tão
comuns em outros países. Gilberto Freyre, em "Casa Grande e Senzala", forneceu
o suporte teórico à nova ideologia, tentando nos convencer que a escravidão no Brasil
não havia sido tão cruel.
Neste contexto nacional, o
movimento umbandista ganhou corpo e estruturou-se a fim de obter o status de
religião brasileira. Primeiro, criou-se a Federação Espírita de Umbanda (1939), atual
União Espírita de Umbanda do Brasil, cujo objetivo primordial era servir de interlocutor
entre os templos filiados, o Estado e a sociedade. Depois, promoveu-se o Primeiro
Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda (1941), cuja finalidade era a unificação
do culto e a normatização de uma doutrina mínima. O Congresso traria, também, à luz
explicações de cunho científico que pudessem desmistificar algumas práticas mágicas,
como a utilização de banhos com ervas, defumadores, charutos, cachimbos, bebidas
alcoólicas, pólvora, punhais etc.; e, ainda, correlacionaria a origem da Umbanda a um
tempo remoto, imemorial que, sem negar a herança africana, transcenderia a própria
África escravizada: Lemúria, Atlântida, Vedas, Índia e Egito.
Ao analisarmos o conteúdo
simbólico das comunicações apresentadas durante o Congresso de 1941, observa-se que os
intelectuais de Umbanda, em busca de legitimidade, tentaram construir uma identidade mais
próxima do "cientificismo" kardecista do que das "primitivas"
religiosidades africanizadas. A estratégia adotada, estava em sintonia com a conjuntura
política, pois a ditadura Vargas via com bons olhos a religião Espirita, muito mais do
que a Católica. Cabe lembrar que, na época, os terreiros de Umbanda eram obrigados a ser
registrados nas Delegacias de Polícia e que era obrigatório a inclusão da palavra Espírita
no nome do templo para se efetivasse do tal registro, liberando o funcionamento do
terreiro.
Sobre o conteúdo das palestras
promovidas pelo Congresso de Umbanda, recomendamos a leitura do artigo do historiador
Artur César Isaia, O Elogio ao Progresso na Obra dos Intelectuais de Umbanda. O
autor debruçasse principalmente sobre as teorias apresentadas por Martha Justina, que
defendia o caráter evolutivo da Umbanda; e Diamantino Coelho Fernandes, que acreditava
que a religião era oriunda do lendário continente da Lemúria.
Para Justina, a "Lei de
Umbanda também segue seu curso evolutivo, saindo das grotas, das furnas, das matas,
abandonando os anciões alquebrados, fugindo dos ignorantes, vem nessa vertigem louca de
progresso, infiltrar-se nas cidades para receber o banho de luz da civilização".
Já Fernandes, sugeria que os negros africanos haviam aprendido os fundamentos da Umbanda
a partir do contatos com os povos orientais, herdeiros das tradições iniciáticas da
Lemúria. A riqueza desses ensinamentos, entretanto, acabara deturpada nos rituais Banto e
Yorubá. "Desde que estudiosos da doutrina de Jesus se dedicaram a pesquisar os
fundamentos desta grande filosofia (...), o Espiritismo de Umbanda readquiriu o seu
prestígio milenar, assim como o acatamento e respeito das autoridades brasileira".
Outro argumento apresentado por
Fernandes para justificar o discurso de antigüidade foi a etimologia do vocábulo
Umbanda, ao qual o autor remete ao Sânscrito. "Sua etimologia deriva de Aum-Bandhã,
isto é, o limite no ilimitado". E, ainda, em outra tese apresentada pelo umbandista
Batista de Oliveira, a Umbanda remontaria ao Antigo Egito. O autor afirmava que a
religiosidade africana que chegou ao Brasil era o resultado de uma
"deturpação" provocada pela fuga dos sacerdotes egípcios durante a
perseguição dos povos invasores. "Os sacerdotes espalharam-se desordenadamente por
toda terra e suas tradições, que eram transmitidas oralmente, foram se deturpando".
Roger Bastide, em As Religiões Africanas no Brasil, refuta as teorias que associam
a Umbanda ao Egito, à Índia, ou a mitológica Lemúria, argumentando que se tratam de
explicações evasivas e etnocêntricas que visam afastar as tradições da África negra,
vista como atrasadas pela cultura do homem branco ocidental.
Paralelamente ao processo de
embranquecimento da Umbanda ocorreu um movimento complementar de
"empretecimento" do Kardecismo. Segundo o antropólogo Renato Ortiz, no livro A
Morte Branco do Feiticeiro Negro, alguns kardecistas estavam insatisfeitos com a
excessiva intelectualização do kardecismo. As manifestações da "macumba"
lhes despertaram gradativamente o interesse. Entretanto, se por um lado, aceitavam a
contribuição de Pretos-Velhos e Caboclos nas sessões de mesa "branca"; por
outro, não admitiam a presença de elementos que eram incompatíveis com as concepções
"evoluídas" do kardecismo. A apropriação do ritual da macumba foi, portanto,
seletiva e depuradora, eliminando-se tudo o que chocava as mentalidades esclarecidas, como
o sacrifício de animais, as oferendas de comida e bebida aos espíritos, o uso de fumo e
o emprego de instrumentos de percussão.
Foram descartados aqueles elementos
considerados primitivos e muito próximos da matéria, contudo, não se podia descartar
todo o conjunto de instrumentos e objetos rituais mobilizados nos cultos. Se, por um lado,
o Kardecismo oferecia um arcabouço doutrinário capaz de articular, numa nova estrutura,
práticas religiosas desvinculadas de antigos mitos; por outro lado, para justificar a
permanência de determinados elementos materiais nos ritos, recorreu-se a um discurso
"científico", onde noções de química e física coexistem com a astrologia, o
ocultismo e a teosofia.
Para Ortiz, a Umbanda representou
uma solução original, pois ofereceu um liame de continuidade entre as práticas mágicas
populares e a ideologia espírita, tendo como fio condutor a reinterpretação dos valores
tradicionais da cultura afro-brasileira segundo um novo código fornecido pela sociedade
urbana e industrial. Assim, o autor explica que as transformações sociais do início do
século XX estimularam, praticamente ao mesmo tempo, o aparecimento de dois movimentos
distintos: o "embranquecimento" da cultura afro-brasileira, a partir do anseio
de ascensão social das classes mais populares; e o "empretecimento" da cultura
européia, a partir do consentimento da presença de elementos da "macumba" nas
sessões kardecistas.
A relação entre a história
recente do Brasil e o surgimento da Umbanda é abordada constante na obra dos primeiros
pensadores da religião e assume um caráter claramente evolucionista. Na visão destes, o
surgimento do movimento umbandista integraria um plano do "astral superior"
visando ao aprimoramento moral e material dos brasileiros. Por exemplo, Diamantino
Trindade, ao contextualizar o surgimento da Umbanda, acentua que o advento do regime
republicano e a libertação dos escravos representariam etapas necessárias para o
aparecimento de uma religião tipicamente brasileira.
Entretanto, se o surgimento da
Umbanda integrava um processo evolutivo no caminho da construção de uma civilização
baseada nos ideais da racionalidade e do progresso, nada mais necessário do que a
separação total da nova religião de tudo o que tangenciasse práticas tidas como
"atrasadas". A Umbanda assumia a herança afro-indígena, aproximando-se de uma
representação sincrética da nacionalidade, própria do pensamento de uma parcela da
intelectualidade brasileira na primeira metade do século XX, ao mesmo tempo que acentuava
em seu discurso as cores do evolucionismo de matiz kardecista.
Assim, a valorização do passado
afro-indígena existiria somente dentro de uma perspectiva processual. Isto é,
valorizavam-se o índio e o negro como importantes elementos formadores da nacionalidade,
mas sob a ótica da evolução constante, capaz de "aprimorar" o que de
"selvagem" e "bárbaro" prendia-os a um passado distante da
civilização. Nesse sentido, os intelectuais umbandistas desenvolveram todo um discurso
denunciador de práticas fetichistas e supersticiosas, avessas ao progresso e a
civilização. Aluizio Fontenelle, por exemplo, fazia questão de afirmar que a Umbanda
"pura" retirava de todas as religiões existentes na terra somente aquilo que
fosse sublime e perfeito.
Ser umbandista, portanto, não é
apenas "sacudir o frasco" nos terreiro e "dar cabeça" ao guia. Antes
precisa conhecer a religião que se pratica. Muitos, na verdade, estão umbandista, o que
é muito diferente de Ser. Antes de jogarmos pedra naqueles que nos antecederam,
acusando-os de racistas, temos que entender que o "embranquecimento" da Umbanda
foi uma estratégia necessária para aquele momento histórico. Precisava-se vencer o
preconceito e a discriminação promovida pela sociedade. Foi a ação dos primeiros
pensadores da Umbanda que afastou os terreiros das delegacias e que fez com que o IBGE
inclui-se no senso de 1960 a Umbanda na lista de religiões praticadas no País. A
pacificação da Umbanda com os cultos mais africanizados ocorreu durante o 2º Congresso
Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, realizado em 1961.
Portanto, não foi Matta e
Silva que tentou promover o "embranquecimento" da Umbanda ao publicar o livro
"Umbanda de Todos Nós", em 1956. Se a obra de Matta e Silva ganhou
notoriedade foi pelo seu empenho em estudar a religião a qual praticava e de compartilhar
o seu conhecimento com quer quem que seja. É, inclusive, apontado pelo antropólogo
Renato Ortiz como o autor da doutrina mais coerente.
Pai Matta ou Mestre Yapacani,
que tem no seu processo de desenvolvimento mediúnico, como todo bom nordestino, passagens
pelo Catimbó, bem como, foi médium da Tenda Espirita São Jorge, segundo informações
de seu atual diretor Pedro Miranda. Matta e Silva, foi um pesquisador autodidata de nossa
religião e não um mero reprodutor de conceitos e pré- conceitos. Lutou contra o uso
comercial da Umbanda, contra as práticas que alimentam o baixo espiritismo e,
principalmente, contra a ignorância do corpo mediúnico.
Afinal, por que se tem medo da
Faculdade de Teologia Umbandista? Não temos vínculos com esta instituição e nem
procuração para falar em seu nome, mas acreditamos que é no meio acadêmico que a
prática cotidiana dos terreiros será melhor pensada. Ninguém espera ver Pai-velho de
toga e nem Caboclo manuseando notebook , mas é a academia que dará legitimidade
às práticas populares. Se até Exú costuma dizer que já foi padre, médico e advogado,
por que não se pode estudar a Teologia de Umbanda? Para finalizar, deixamos aos leitores
que chegaram até aqui, uma passagem que ocorreu com a pesquisadora norte-americana Diana
Brown: quando esteva no Brasil estudando os rituais de Umbanda, em um dos muitos terreiro
que visitou, a antropóloga acabou por "incorporar", de repente, um belo
caboclo, com direito a brado e tudo mais. Fato este, que a deixou muito desconcertada.
Não será esse mesmo desconcerto que incomoda a tantos umbandistas: a hipótese de virem
a sentar nas carteiras de uma sala de aula?
Com votos de
profunda paz nos seus pensamentos, irradiante alegria nos seus sentimentos e harmonia nas
suas ações, com prosperidade, força e minha benção.

THASHAMARA
O ETERNO APRENDIZ |