
"Sacrifício" na Umbanda?
"Parece
então que você está colocando que existe sacrifício animal para o bem. É esse seu
pensamento e doutrina ou li a mensagem de forma errada?"
O que é bem e o que é mal? Será
que esta dualidade não compõe a justiça?
O tema é um tabú para
muitos de nós, integrantes do Movimento Umbandista. Talvez mais por formação do que
pela informação, propriamente dita. Há alguns anos, praticava uma ferrenha censura a
tal prática, tanto nos aspectos conceituais, quanto na forma em que estamos a deparar
"pelas ruas da vida". Hoje, após alguns anos de estudos, certamente continuo na
ferrenha censura na sua forma praticada no Brasil, mas não no seu conceito.
Em termos práticos, o que
assistimos por aí? "Oferendas" e "preceitos" depositados nos
cruzamentos de ruas, onde a forma está absolutamente cristalizada naqueles que orientam e
praticam esta forma. Para os céticos, que percebem a "maldade" nos ditos
sacrifícios, esquecem-se, que na mesa de bilhões de pessoas transitam alimentos de
origem animal, cujos "provedores", sem quaisquer tipo de respeito, dó, além da
ausência de sentimentos, etc... Assim, tanto para a "oferenda" da fome, quanto
a "oferenda" da magia, utilizam-se de recursos do reino animal para saciar ou
promover alguma coisa.
Infelizmente, temos como
característica de sentir as coisas, a partir do que vemos e não exatamente do que
acontece. Se procurarmos entender os versos de Ifá, e percebermos as suas entrelinhas,
veremos que o momento atual está absolutamente distante da sua origem. Assistimos, no
cotidiano, espetáculos de "sacrifícios", quase que circenses, além de certas
apresentações bizarras (que chegam à beira da insanidade), onde indivíduos travestidos
ou não de médiuns e entidades, fazem e/ou pedem o "sacrifício" para alguma
finalidade, que pela apresentação ou disposição, estão mais voltados para a face
negra da magia. Portanto, aquilo que é habitual, está muito distante da Tradição
Africana, que também é uma das raízes da Umbanda.
Para se ter uma idéia, até
para amenizar um pouco o estigma desta prática para fins positivos, na sua origem, o
"holocausto" tinha que ser realizado obedecendo a algumas questões, quer seja
no objetivo, quer seja na forma. Como naquelas épocas não existiam peixarias, açougues,
churrascarias, restaurantes especializados em cozidos e outras iguarias que fazem parte da
dieta humana, o objeto da oferenda ou preceito, precisava ser literalmente caçado e
"sacrificado", para uma determinada finalidade (Uma observação: Nem todas as
oferendas prevêem a utilização de elementos do reino animal). Alguns requisitos seriam:
no caso de utilização de animais, que os mesmos seriam sacrificados sem dor ou
sofrimento (Havia especialistas!); Seriam utilizadas apenas as partes "mágicas"
que continham o Axé (ou vermelho ou branco ou preto); O restante do animal, que não
seria e não é utilizado, era utilizado em repastos comunais. As partes não utilizadas
(quase todo o animal) deveriam ser preparadas para serem servidas às pessoas,
especialmente aqueles que não tinham o que comer. O coração (Axé vermelho), os
pulmões (Axé branco) e fígado (Axé preto) não deveriam ser consumidos por humanos
(inclusive muitos médicos, na atualidade, recomendam que estas partes, mesmo compradas em
açougues e afins, não devem ser consumidas, pois são prejudiciais à saúde humana).
Ah! Em muitos dos preceitos, os elementos com axé, eram cozidos ou assados... Mas, vemos
que na realidade atual a coisa não é bem assim. Certamente, muitos o fazem mais por
desinformação do que com intenção.
Se formos buscar na
história, passada e recente, muitas religiões se utilizam do sacrifício animal
(inclusive sem dó ou piedade) para agradecerem ou louvarem (além de outros para
finalidades deletérias). Como exemplos, daria: 1) Cristo levou o seu cordeiroo
sacrifício; 2) Os protestantes nos EUA têm o dia de ação de graças, onde o prato
(preceito) é o peru; 3) Os que comemoram o Natal, utilizam-se de frangos, perus e porco
nas suas ceias; 4) No ano novo, o dito popular diz que na ceia da virada, "tem que se
comer a carne de porco à meia-noite, pois o bicho fuça para frente. Não se pode comer
frango, pois o mesmo cisca para trás, não é mesmo? 5) Os Yantras desenhados e pintados
pelos Hindus utilizam de elementos líquidos, especialmente a bilis do principal animal
sagrado dos indianos; Assim, a humanidade em suas diversas formas de manifestação,
utiliza do holocausto animal. Quantos de nós já não comemorou alguma coisa com um
"churrasquinho" ou uma "peixada"?
Logo, temos de observar e
analisar os porquês, os motivos, as realidades das épocas, enfim, todo um contexto. O
que pode parecer anormal para muitos, poderá ser normal para muitos outros. Tem mais um,
entre tantos outros detalhes, na Tradição Africana, quando era indicada para uma pessoa
a utilização de preceitos que tivesse a necessidade de animais e esta pessoa não tinha
recursos financeiros para adquirí-lo, uma parte deste animal bastava: Por exemplo, uma
escama representava o peixe, um pelo representava um mamífero, uma pena representava uma
ave.
Assim, você leu
corretamente a minha colocação. Mas gostaria de observar que, apesar de compreender a
sua existência, limito-me o uso na necessidade de troca de uma vida.
Com votos de
profunda paz nos seus pensamentos, irradiante alegria nos seus sentimentos e harmonia nas
suas ações, com prosperidade, força e minha benção.

THASHAMARA
O ETERNO APRENDIZ |