
A Desafricanização das Tradições
Afro-Brasileiras na Umbanda
"A Umbanda pode ser considerada uma síntese de diferentes tradições religiosas
representadas pelos vários grupos étnicos e sociais do Brasil, que são freqüentemente
antagônicos. Entretanto os umbandistas tem freqüentemente uma atitude ambígua em
relação às tradições Afro-brasileiras. Isto reflete as tendências sócio-culturais
dominantes na sociedade brasileira. A Umbanda se originou num período político
turbulento que testemunhou, entre outros fenômenos, a emergência de movimentos
nacionalistas e facistas. Esse desenrolar político culminou na ditadura de 1937, com o
chamado Estado Novo. Foi durante este período de grande nacionalismo que a ideologia da
democracia racial começou. De acordo com esta ideologia, que era baseada no igualitarismo
racial, os vário grupos teriam tido igual importância na formação da civilização
brasileira. Esta ideologia deu assim um ímpeto na crença de que o preconceito racial
não existia no Brasil. Seus efeitos já tinham começado a se fazer sentir no final da
década de 1920, com a nacionalização e institucionalização da cultura
Afro-brasileira. Práticas culturais como o carnaval e as escolas de samba, que tinham
sido relegadas ao mais baixo status por causa de sua associação com a classe social dos
negros eram agora reconhecidas como componentes importantes da cultura nacional (Brown
1994: 206). Os estudiosos brasileiros também começaram a se interessar seriamente pela
cultura Afro-brasileira, que desde o início era considerada de um ponto de vista
folclórico. Ao mesmo tempo a ditadura aboliu os movimentos negros que lutavam contra a
discriminação racial, que continuou profundamente enraizada na realidade social. O
espiritismo, especialmente o baixo espiritismo representado pelas religiões
Afro-brasileiras, era ainda proibido por lei. Durante o período da ditadura, que também
representa os anos de formação da Umbanda, a perseguição a pessoas envolvidas no
espiritismo se intensificou. Com toda a certeza era a perseguição a pessoas envolvidas
no baixo espiritismo (isto é, em religiões Afro-brasileiras), que levou os umbandistas a
se identificarem com o espíritas (termo usado pelos espíritas kardecistas para se
identificarem). Escolhendo esta auto identificação os umbandistas se associaram com o
Kardecismo e com o alto espiritismo. Parece que o termo espírita foi usado para esconder
nomes e para dissociar praticantes das novas religiões de sua ascendência
Afro-brasileira, um gesto que traz a reminiscência da máscara católica das religiões
Afro-brasileiras durante certo tempo. Como foi mencionado, a ideologia da democracia
brasileira era, e é, manifestada como uma hegemonia branca. Este estado de coisas
revela-se como primeira tentativa de legitimar a Umbanda como religião. A legitimação
envolve a desafricanização e o esbranqueamento da Umbanda. Em 1939 alguns fundadores dos
centros originais da Umbanda do Rio de Janeiro, inclusive Zélio de Moraes, estabeleceram
a primeira federação da umbanda, a União Espírita da Umbanda do Brasil (UEUB). A
federação foi criada para organizar a Umbanda como uma religião coerente e hegemônica
e assim obter legitimação social. Em 1941 a UEUB realizou a primeira conferência sobre
o Espiritismo da Umbanda, que foi uma tentativa para definir e codificar a Umbanda como
uma religião com direitos próprios, e como uma religião que une todas as religiões,
raças e nacionalidades. A conferência é ainda conhecida por promover maior
dissociação com as religiões Afro-brasileiras. Os participantes concordaram em fazer
dos trabalhos de Allan Kardec a doutrina fundante da Umbanda. Mas os espíritos
fundamentais da Umbanda, os Caboclos e o Pretos Velhos ainda permanecem como espíritos
muito evoluídos. Pode-se afirmar que os participantes se esforçaram para legitimar a
Umbanda como uma religião bastante evoluída. Por exemplo declarou-se que a Umbanda
existiu como uma religião organizada por bilhões de anos, e estava assim à frente de
outras religiões. Neste esforço para legitimar a Umbanda como uma religião original e
evoluída, os participantes procuraram cortá-la de suas raízes Afro-brasileiras. A
origem da Umbanda foi traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a
Lemúria (um continente perdido), e daí para a África. Na África, continua a estória,
a Umbanda degenerou em feiticismo. Desta forma foi trazida para o Brasil pelos escravos
negros. (Federação Espírita de Umbanda 1942: 44-47). A influência africana da Umbanda
não era assim negada, mas olhada como uma corrupção da tradição religiosa original,
na sua fase anterior de evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismo
africano, na forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes, defeitos
psicológicos e étnicos. (Ibid.: 116). Outro jeito de sublinhar o caráter africano da
Umbanda foi expresso no reconhecimento de que ela se originou na África, mas na África
oriental (Egito), portanto na parte mais ocidental e civilizado do Continente. (Ibid.:
114). Um dos objetivos da conferência era desta forma traçar as raízes genuínas da
Umbanda do Oriente. A invenção de raízes orientais- somada à negação das africanas-
refletiu na definição do termo Umbanda, que se crê geralmente ser derivado da língua
Banto. Declarou-se que umbanda teria vindo do Sânscrito aume bhanda, termos que foram
traduzidos como "o limitado no ilimitado", "Princípio Divino, luz
radiante, fonte de vida eterna, evolução constante" (Ibid.: 21-22). Os
participantes se esforçaram em associar a Umbanda com coisas como as tradições
religiosas esotéricas européias e as novas correntes religiosas da Índia, representada
pela Vivekananda. A influência africana da Umbanda foi reconhecida como uma mal
necessário que serviu meramente para explicar sua chegada e desenvolvimento no Brasil. O
Candomblé, centralizado no nordeste do Brasil, era olhado como um estágio anterior da
Umbanda, que havia se desenvolvido no sudeste. O Candomblé estava ainda marcado pela
barbárie dos rituais africanos e assim associado com a magia negra. A lavagem branca da
origem da Umbanda era expressa em termos como umbanda pura, umbanda limpa, umbanda branca
e umbanda da linha branca no sentido de "magia branca". Estes termos
contrastavam com magia negra e linha negra que estavam associados com o mal. Além disso,
a divisão dos espíritos estabelecida, desenhou a linha entre aqueles da direita (bons),
representados pela Umbanda, e os espíritos da esquerda (maus), representados pela magia
negra. As únicas instâncias de identificação positiva da influência africana da
Umbanda tem a ver com os Pretos Velhos (que eram vistos como pessoas simples e humildes,
mas espíritos muito evoluídos), e com a África como um continente heróico e sofredor.
A atitude dos participantes em relação à herança religiosa africana era assim
caracterizada pela ambigüidade. Elas eram positivas e negativas, oscilando da tentativa
de dissocia-los das tradições religiosas africanas até sua atitude distintamente
paternalista para com a África, a quem classificavam com a imagem de humilde escrava. Os
negros brasileiros eram aceitos porque afinal tinham alma branca. Extraído do Artigo:
Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: Da Desafricanização para a
reafricanização Tina Gudrun Jensen - traduzido por Maria Filomena Mecabô."
Apreciei a
leitura "Da Desafricanização para a reafricanização", de Tina Gudrun Jensen,
traduzido por Maria Filomena Mecabô, extraído do Artigo: Discursos sobre as religiões
afro-brasileiras.
Por sua
vez, creio que a Sra. Jensen, poderia ter ido um pouco mais fundo nas suas conclusões,
pois alguns aspectos de natureza concreta, tangível e palpável, foram omitidas, talvez,
mais por desconhecimento do que por um postura de ponto de vista.
Começando
pelo título da postagem, creio que há um engano inconsciente sobre a questão de
"Racismo" na Umbanda, pois a Umbanda, representada pelo Movimento Umbandista,
talvez seja o único movimento filo-religioso que não tem o interesse de origens sociais,
políticas, étnicas, ideológica, etc, daqueles que a procuram ou da qual participam.
Se formos
considerar, na sua estrutura, a "Umbanda atual", antes da influência da raiz
africana, as bases estariam na raiz indígena, que começou lá pelos idos de 1580, na
aproximação dos jesuítas com os nativos do Brasil, visando o que os nativos usavam em
seus beiços, quando começaram a sincretizar os santos com o panteão indígena, a partir
das lendas locais. Curiosamente, a data comemorada como histórica da
"fundação" da Umbanda, se refere a um fato que ocorreu, manifestando a Umbanda
em um Centro Espírita (denominado Kardecista), em 15 de novembro de 1908.
A Umbanda,
ou melhor, o Movimento Umbandista, na sua simplicidade se permitiu a cobertura de todos
aqueles que estavam a margem dos interesses de uma época, favorecendo ao almagamento de
conhecimentos e comportamentos de diversas origens, inclusive a africana, donde, se
analisarmos detalhadamente, contribuiu com várias de suas denominações.
De certo,
nas primeiras décadas do século passado, a hegemonia branca forçou a um estado de
coisas, onde inclusive, muitos terreiros se travestiam de "Tendas Espíritas de
alguma coisa", para evitar que a polícia batesse à sua porta.
Não
concordo com a questão de desafricanização para a reafricanização, pois a Umbanda ou
melhor, o Movimento Umbandista tem, creio eu, a perspectiva de
"nacionalização", representando um estado de espírito religioso formado no
Brasil. A questão de se afastar ou de se aproximar mais de outros conceitos, cabe tão
somente àqueles que o praticam. As similitudes entre diversos movimentos, poderá
realizar aproximações e, se atender aos objetivos de bem-estar, independem da forma.
Se
buscarmos as raízes do Movimento Umbandista, envolvendo todos os caminhos percorridos,
veremos que mais ou menos, algumas características são preservadas de fontes originais,
nas partes e não no todo. Se aprofundarmos ao Candomblé, veremos que raríssimas Roças
preservam algo próximo às suas origens africanas, pois a grande maioria está num estado
inconsciente de identidade, pois se vê muito "Umbandomblé", onde muitos ritos
ditos como originais, não passam de deturpações alteradas ao longo dos anos. Por sua
vez, outros conceitos ou perspectivas de origem são só especulações, pois se formos
buscar nos estudos arqueológicos, inclusive no Brasil, veremos registros semelhantes em
diversas partes, permitindo tirar conclusões pessoais de que a essência da Umbanda
transcende os nossos registros atuais.
Quanto ao
termo "esbranqueamento" da Umbanda, também não concordo, pois as
características étnicas de cada grupo que o pratica é que vão definir estes grupos.
Certamente, um Terreiro no Rio Grande Sul terá uma característica étnica diferente de
um Terreiro no Rio de Janeiro. Muitos afirmam que todo brasileiro tem suas origens em pelo
menos em três contimentes (americano, africano e europeu). Independente do que dizem, na
minha genealogia (física, concreta, dirá das espirituais), tenho bisavós e tataravós
índios, africanos e europeus. De que raça eu sou? Pelo meu nome civil dirão que sou o
"Caco Antibes", mas e daí? O que importa: é o fim ou o meio? Não faria parte
de uma nova raça?
Assim
sendo, discordo de que se queiram cortá-la de suas raízes ou mesmo pensam que se estão
cortando as raízes. Não dá! Pois as raízes são as únicas referências palpáveis,
pois as demais são por demais abstratas e um pouco distantes de nossa compreensão, que
certamente na atualidade, poucos têm acesso.
Talvez,
para facilitar melhor esta compreensão, o Movimento Umbandista deveria ser definido como
sendo uma religião afro-européia-brasileira, assim se estaria realmente envolvendo os
vários aspectos e formas religiosas do planeta, que formam a sua base.
Com votos de
profunda paz nos seus pensamentos, irradiante alegria nos seus sentimentos e harmonia nas
suas ações, com prosperidade, força e minha benção.

THASHAMARA
O ETERNO APRENDIZ |