
Sobre a inexistência de Deus
"Santo
Agostinho citava a seguinte metáfora: o homem que pretende compreender Deus é aquele que
cavoca na praia, e fica a tentar botar o mar na sua pequena cova. Essa concepção da
intangibilidade de Deus, por outro filósofo, foi-nos também oferecida, o alemão
Immanuel Kant. Para ele, o conhecimento humano dava-se pela razão, mas segundo as
categorias obtidas pelos sentidos. Assim, a lei da causalidade não está na natureza, mas
em nossa razão. Temos certeza que se soltarmos um objeto a certa altura do chão, ele
cairá, simplesmente porque o conjunto de vezes que vimos isso ocorrer fez-nos propor uma
solução racional para esse fato, solução essa que aplicamos indutivamente dali em
diante. A partir desse raciocínio, nunca poderíamos, por exemplo, responder a pergunta:
o universo é infinito?, pois não há, em nossa razão, categoria nenhuma sobre isso,
mesmo porque não podemos perceber, por inteiro, uma realidade da qual somos apenas
ínfima parte. Essa lógica aplica-se, mutatis mutandis, a Deus. Assim, a idéia da
existência de um Deus que tudo criou é tão improvável racionalmente quanto a da sua
não existência. Kant tenta aqui salvar a religião, atribuindo à fé, o exclusivo poder
de preencher essa lacuna. Não concordamos com o filósofo nesse ponto. Pois, se não nos
é dado, como disse Hegel, trabalhar senão com categorias finitas, devemos, então,
trabalhar com o que nos é palpável. E a partir das incoerências daí obtidas, chegarmos
ao conhecimento mais próximo da verdade possível. Partiremos então da questão da
imortalidade da alma humana. Eis aqui, somos nada senão animais. Nada mais. Vivemos a
buscar diuturnamente a satisfação de nossas necessidades fisiológicas. É apenas o que
fazemos toda a vida: buscar a satisfação do instinto, qual seja a continuação da
espécie. Trabalhamos para comer e alimentar nossas crias, somos vaidosos e persecutores
do sucesso social apenas para encontrar a/o melhor parceira/o para reproduzirmos. E é na
satisfação desses instintos que encontramos nossa felicidade. Se Romeu ama Julieta, mas
não consegue copular, é punido com extremo sofrimento, e até com a depressão e a
vontade de morrer. Essa realidade é a única plausível diante da teoria evolucionista
darwinista, por muitos ainda cegamente contestada. Entretanto, antes mesmo de Darwin, um
filósofo, sem dúvida o mais lúcido dos mileseiscentistas, já nos ofereceria tal
concepção. Nas palavras de Spinoza: "Cada instinto é um aparelho desenvolvido pela
natureza para preservar o indivíduo, a espécie e/ou o grupo. Prazer e dor são
conseqüências do instinto satisfeito ou contrariado. Não são causas do nosso desejo,
mas seus resultados. Nós não desejamos coisas porque elas nos dão prazer. Elas nos dão
prazer porque as desejamos e as desejamos porque temos que desejá-las. Conseqüentemente,
não há vontade livre ou livre-arbítrio. As necessidades de sobrevivência determinam o
instinto, o instinto determina o desejo e o desejo determina o pensamento e a
ação." Posto isso, poderemos responder a algumas questões: se somos animais em
busca da satisfação fisiológica, qual o sentido da vida eterna? do que serve nossa
inteligência depois da morte se não mais é necessária a cópula, a alimentação, a
vida em família? se a felicidade é o orgasmo, a saciação, como deverá ser o paraíso?
se Deus é justo, por que não são todos os seres humanos suscetíveis à felicidade? por
que alguns nascem débeis mentais, aleijados, outros doentes? onde está bondade dEle que
permite que essas pessoas passem suas vidas a sofrer a refugação apenas? se Deus é
perfeito, porque sua Justiça é pior que a do homem? nessa não há crime sem que seja a
conduta pré-determinada, na divina somos condenados, não por atos, mas pela vida
inteira, como se não fosse a vida algo tão complexo, como se todos fossem ou bons ou
maus? onde encontraremos o espírito paterno, se Ele nos deixa jogados, como disse
Heiddegger, no mundo, simplesmente jogados? E, por fim, se é a alma que determina nosso
comportamento, nossa consciência, como podemos ser tão absolutamente dominados pelas
substâncias químicas? As respostas são óbvias e só nos levam a uma conclusão, Deus
é um absurdo! Uma mentira. Se existisse, seria, como disse um jovem certa vez: um grande
sádico. Cegar-se a isso é, nas palavras de Goethe, ser "uma criatura que vê cair
as folhas sem pensar em mais nada senão em que o inverno está chegando" .. Se
sabermos que não somos eternos, que não somos protegidos por Ele, que não temos nenhuma
possibilidade senão aquelas que nos são aqui apresentadas, se tudo isso é uma perda,
ganhamos, por compensação, duas certezas, a de sermos o centro de nossas vidas e a de
não sermos escravos senão da nossa humanidade! Como disse Nietzsche: "Deus está
morto!". "
Paz!
Feliz colocação. Há muito não lia textos inteligentes sobre a questão, onde nos
provoca uma profunda reflexão. Por sua vez, os pontos de vista creacionistas e
humanistas, forçam-nos a buscar os argumentos necessários dentro de nossas convicções,
reformulando-as ou reforçando-as.
Quem somos nós e, certamente, quem sou eu para descrever ou compreender Deus em sua
dimensão, pois somos muito pequenos em nossas consciências para entende-Lo na sua
plenitude. A partir de pequenos exemplos, discussões ou mesmo metáforas, podemos tirar
as nossas conclusões pessoais, sentidas ou não, pois para os creêm na sua existência,
Ele existe, para os que não crêem, Ele não existe.
Somos seres dotados de razão e racionalidade (muitas vezes, irracionais) que nos leva a
pensar, considerar e filosofar, pois se estamos aqui, mesmo para os que não acreditam na
"casualidade", estamos por algum motivo desenvolvendo um papel no contexto
universal, pois, querendo-se ou não, todos os elementos do universo estão em sintonia,
desempenhando o seu papel.
Na metáfora sugerida por Santo Agostinho, na sua simplicidade, trás um contexto sobre
como podemos compreender Deus. Ele exemplificou através de se cavar o buraco na praia.
Teríamos vários sentidos. O que percebo é que não adianta cavar um buraco na praia e
colocar o mar dentro, pois certamente não caberia. Aí, começa pela nossa
"pequenês". Por sua vez, ao se cavar um buraco na praia, certamente a água do
mar aparecerá. Talvez, quisesse nos transmitir que não haveria a necessidade para
colocar a água de fora dentro e sim, encontrar a "água" dentro de nós mesmos.
Portanto, creio que Deus seja tangível.
Não concordo que a lei da causalidade não está na natureza, pois podemos perceber em
todos os movimentos da matéria a lei física de ação e reação. Querendo ou não,
percebendo ou não, consciente ou inconscientemente, a cada ação sempre teremos uma
reação igual e contrária. Assim, Se vejo a pedra que cai em direção ao chão, posso
deduzir também, que o chão subiu até a pedra. Levando-se em consideração que temos a
eternidade e uma perspectiva "infinita" de possibilidades de pensamentos a
respeito das coisas, posso supor também, que para a pergunta: "O universo é
infinito?"; na minha racionalidade, antes de responder, perguntaria, qual dos
Universos é infinito. Se compreendo a existência de apenas um universo, certamente será
infinito. Entretanto, na minha convicção, o Universo que habitamos é finito...
Com relação aos filósofos europeus e contemporâneos, levo em consideração outros
aspectos, pois viveram em realidades específicas, sob pressões de uma formação ou
influência religiosa plasmada no ter e não no ser. É claro que o ter apresentará muito
mais condições para as posições materialistas, do que o ser, pois o ter é mensurável
e o ser é abstrato.
A questão sobre a nossa existência, baseada na perpetuação da espécie, complementada
pela satisfação de algumas necessidades, sob a minha ótica, é relativa, pois a
identificação das necessidades, em qualquer grau, dependerá da percepção de cada um.
Poder-se-ia levar em consideração a teoria de Maslow, mas cada um vê o que acha mais
importante. Até as necessidades fisiológicas podem ficar em segundo plano, se você
percebe outras mais importantes.
Não posso considerar "vida eterna" no corpo físico, considere-o através do
espírito. Assim, a idéia permanece viva. Portanto, Deus é justo e bom na eternidade,
pois permite que cresçamos, realizemos, pensemos, exercitemos, buscando a felicidade
eterna, que por sinal, está muito distante... Todos os seres são suscetíveis à
felicidade. E, todos nós já tivemos a oportunidade, na gênesis dos tempos, de
desfrutá-la. Agora, estamos num processo de resgate individual e coletivo. Aí, faço a
pergunta, alguém que nasceu belo, sadio, rico, sem obstáculos, etc é feliz na
atualidade? Se o for, é medíocre, hipócrita, etc, pois será apenas esticar o pescoço
e ver como estão 5/6 da humanidade...
Não podemos ficar amarrados a interpretações sobre um Deus particularista, bravo e com
outros adjetivos que fogem ao bom senso e a mínima inteligência. A exemplo do Jeovah
adorado por muitos, lendo os seus ensinamentos, vejo-o como personificação da
"besta". Pois manda matar, castigar, etc. Assim, temos que nos deslocar para um
plano mais alto, para poder compreender o que é bondade e misericórdia. Não aceito e
não admito um Deus rancoroso. No mínimo, é um estupidez! E, certamente, Ele não nos
deixa jogados. Estaríamos, se não fossemos seres pensantes...
Como disse Nietzsche: "Deus está morto!". Entretanto, creio que ele tenha
esquecido de mencionar: morto para os que não crêem, morto para os que em função de
suas próprias irresponsabilidades não têm a quem culpar, morto para aqueles que são
individualistas, morto para os egoístas, morto para os irados, morto para os levianos,
morto para os receosos, morto para os ignorantes, morto para os luxuriosos, morto para os
soberbos.
Enfim, sou centro da minha vida, mas não posso perder de vista as outras, pois se existem
muitos acima e muitos outros abaixo, certamente não vivo, apenas sobrevivo.
Como disseram, "penso, logo sou."
Com votos de
profunda paz nos seus pensamentos, irradiante alegria nos seus sentimentos e harmonia nas
suas ações, com prosperidade, força e minha benção.

THASHAMARA
O ETERNO APRENDIZ |