
Entrevista com
Thashamara
No dia 19 de julho de 2008, Mestre Thashamara transferiu o comando da Ordem de Umbanda do
Cruzeiro do Sul para seu discípulo Arashakamá.
Conduzida por Pai Antônio de Aruanda, a cerimônia foi simples como, aliás,
simples devem ser todas os rituais de Umbanda , mas de muito significado para
aqueles que tiveram o privilégio de assistir. Nos momentos que antecederam o evento,
Mestre Thashamara ou melhor, Marcio Bamberg concedeu-nos uma entrevista, na
verdade um bate-papo descontraído, no qual ele explicou que a transferência do comando
representou um "exercício de desapego" e que, a partir de agora, espera
vivenciar a prática diuturna do amor e da caridade sem o peso da condução de um dos
ramos da Raiz de Guiné. Márcio lembra que os ensinamentos deixados por Mestre Yapacani
(W. W. da Matta e Silva) continuam atuais, destacando que 80% dele ainda não foi
devidamente compreendido. Atualmente, a Umbanda do Cruzeiro do Sul se entende por cinco
estados brasileiros, com templos ativos em Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Rio
Grande do Sul, e também no exterior, mais especificamente na Bolívia e na Alemanha,
além de Discípulos em várias regiões do país, bem como no exterior.
JH: Há quinze anos você fundou a Ordem de Umbanda do
Cruzeiro do Sul (OUCS). Quais foram as suas motivações naquela época?
Thashamara: Vamos por partes. A Umbanda do Cruzeiro do Sul é
formada por uma Legião de Entidades Espirituais muito antigas, cuja referência se perde
na noite dos tempos. Em princípio, a sua forma se mescla com a própria Raiz de Guiné,
tendo apenas uma titulação diferente no mundo da forma, no sentido de que não se firam
suscetibilidades ou mesmo dificulte a exposição ou mesmo ação, frente às necessidades
de amor e caridade, tão escassas no planeta. Quando em meados da década passada,
começaram a surgir sinais de que não se poderia perder o esforço de uma vida ou de uma
geração, fui apenas lembrado de meu compromisso para manter a chama acesa, criando
condições para que outros, certamente mais habilitados do que eu, levasse a bandeira da
Umbanda sem caprichos ou mesmo sem necessidades de trazer um contexto mais complexo para o
seu entendimento. Assim, em 1994, apenas concretizou-se no Plano Físico, o que já
existia no Plano Espiritual.
JH: Quais ais mudanças que a religião sofreu nesse período?
Thashamara: Muitas! E como... Talvez, as mudanças ocorridas, que
sob o meu humilde ponto de vista, foram para um aumento de dificuldades. Coincidentemente,
neste período, tivemos o início da "avalanche" da internet, abrindo um
espaço, quase que infinito, sobre todos os temas relativos ao conhecimento humano, sendo
óbvio, portanto, a religião. Por um lado, a sede de novos conhecimentos ou mesmo a
divulgação do que se compreendia, gerou a aproximação de muitos e, também, o
afastamento de muitos outros. Num certo momento, o instrumento cibernético foi utilizado
como forma de divulgação maciça, levando ao despertar dos que estavam adormecidos, bem
como a cisão de algumas correntes. Em complemento, na busca de firmar-se o reconhecimento
público através de uma corrente intelectual com linguajar não muito simples, devido a
falta de prática, grande parte dos seguidores foram sensibilizados pelas seitas
neo-pentecostais, cujas palavras caiam como açúcar para um povo cansado, desanimado,
sofrido, etc., que apesar de continuar na mesma situação, acredita que terá seu
pedacinho no paraíso, a partir do "loteamento" que estão realizando.
JH: Em que medida a OUCS contribuiu para essas mudanças.
Thashamara: Fico com o sentimento de que muito mais coisas
poderiam ter sido feitas, mas ... tudo ao seu tempo... A linha da Umbanda do Cruzeiro do
Sul foi, é e creio que continuará sendo, a simplicidade, através de uma linguagem que
fale à alma. Considero que o papel da Umbanda do Cruzeiro do Sul foi muito importante
neste processo, pois, apesar dos recursos materiais escassos, os seus Iniciados, de
inquestionável cabedal e entusiasmo, mantiveram a chama da Raiz de Guiné acesa, bem como
a discussão dos temas levantados e introduzidos por Yapacani (W.W. da Matta e Silva), que
até hoje são pouco compreendidos ou entendidos. Alguns valores foram introduzidos pela
divulgação e compreensão de conhecimentos que até aquela época, eram
"herméticos", velados, enfim, verdadeiros tabus. A Umbanda do Cruzeiro do Sul
estimulou o debate e a "quebra" de erós, fazendo com que muitas lendas
passassem a ser compreendidas sem adornos ou voltas. Sabe-se que é muito mais fácil
evoluir da discussão, quando todos têm o conhecimento à respeito do assunto. E outra,
estamos no século XXI e tem-se que acabar com o domínio de um sobre os outros.
JH: A OUCS, ao lado de outras instituições, também se
apresenta como "herdeira" do legado de Pai Matta e Silva (Mestre Yapacani). Como
foi a relação da OUCS com as demais ordens?
Thashamara: Uma pergunta interessante... Vou respondê-la por
analogia. Se você tem um imóvel e não realiza a função social do mesmo e uma pessoa o
ocupa para morar. O que acontece em cinco anos? Isso mesmo, muda-se de mãos. Em relação
às demais instituições, não tenho contato há alguns anos, entretanto, cabem dois
registros, que marcaram a minha militância na Umbanda. Sem citar nomes, quando da última
visita a uma delas, o principal Caboclo, manifesto em um dos Mestres Iniciados por
Yapacani, foi objetivo, com aquele olhar de pedinte: "continue a fazer o que está
fazendo. Não desista, pois a Umbanda precisa!" E, um outro Mestre, que muito
respeito, pelo conhecimento e habilidades, disse-me que deveria ter sido iniciado por
Yapacani, mas devido a um "acidente de percurso", nossos caminhos foram
diferentes. E, mais uma coisa, não gosto do termo "Ordem", pois acredito que
engessa a mensagem, formando uma egrégora de "quatro paredes", feudos, quando
na realidade, o contexto é muito mais amplo e sem fronteiras.
JH: O que representou a Tenda de Umbanda Oriental para o
movimento umbandista?
Thashamara: Um marco sem precedentes, cuja continuidade ficou
debilitada com a não determinação de uma liderança para o processo, gerando mais
discussão e revolução, do que evolução. Mas voltando à questão, a Tenda de Umbanda
Oriental, apesar da sua riqueza espiritual, traduzia-se pela forma simples de ação,
buscando o real alívio de mazelas espirituais e físicas para os que à recorriam. Além
do mais, foi possível a Yapacani a tradução e transliteração de conhecimentos, dando
"nome às coisas", permitindo às pessoas a compreenderam o que faziam e
recebiam. Saiu da seara do "desconhecido" e velado, permitindo uma compreensão
clara e lógica, afastando-se de lendas. Algumas belas, mas outras, totalmente sem
sentido. Enfim, abriu-se a perspectiva de crescimento, mas o seu esforço custou muita
energia.
JH: Os ensinamentos deixados por Matta e Silva ainda
podem ser vistos como atuais?
Thashamara: Totalmente! Diria que 80% de sua obra, através dos
nove livros que publicou, não é compreendida. Decora-se muito, mas compreende-se pouco.
Assim, aproximando os pilares do conhecimento humano, você poderá chegar ao infinito...
Por exemplo, mostre alguns símbolos de Exús para um Engenheiro Eletrônico ou Elétrico.
Veja o que ele vai dizer. Assim, tem muito o que se observar e apreender.
JH: A Raiz de Guiné ainda está viva ou ela é apenas fruto de
um saudosismo?
Thashamara: Amor e caridade compõem o saudosismo? Encaro como
uma missão. Inclusive, todos os Iniciados da Umbanda do Cruzeiro do Sul compreendem esta
responsabilidade de manter a discussão sobre o legado deixado. É certo que um dia
mudará através de um processo normal de evolução, sem uma ruptura instantânea, como
aconteceu há alguns anos, com a Raiz. Talvez, se a Umbanda do Cruzeiro do Sul não
erguesse esta bandeira, a Raiz de Guiné, no mundo da forma, seria página do passado,
compondo, quando muito, os livros de história e estórias.
JH: A transição de comando é uma questão que provoca muitas
tensões em uma casa de Umbanda. O que há em comum entre Marcio Bamberg e Bill Gates para
decidirem passar o bastão num momento ainda tão produtivo da vida?
Thashamara: Preferível agora, do que num momento em que não
esteja com esta energia. Ou mesmo, romper-se através de um afastamento forçado por
questão de saúde ou acidente, sei lá. Mas, a perspectiva de transmissão do comando se
faz dentro do aprendizado do desapego, possibilidade do novo líder oxigenar com idéias,
permitir o desenvolvimento e o crescimento de todos. Você não sabe o quão duro é não
poder discutir alguns temas. Assim, a transmissão não provoca uma solução de
continuidade ou mesmo disputas intestinas.
JH: Como seus discípulos encararam essa decisão?
Thashamara: Com mais maturidade do que imaginava. Fiquei feliz e
seguro sobre a decisão, após a manifestação de todos. Como precisava ser feito e como
foi feito e no dia em que foi feito, não houve espaço para discussão. Apenas a minha
comunicação.
JH: Após a transição, como será sua relação com os
discípulos? Os vínculos permanecerão?
Thashamara: A única coisa que podemos mudar é o dharma e não o
karma (gargalhada!). Aos que tive o direito, dever e licença para "colocar a mão em
suas cabeças", continuam sendo meus discípulos enquanto acharem que deverão ser.
JH: Como se deu a escolha de Arashakamá?
Thashamara: A espiritualidade teve vital presença nesta
escolha, afinal, algo novo no meio e uma provável mudanças de estilos, não poderia ser
diferente. O processo não foi de pronto. Demoraram alguns meses, situação em que Pai
Antônio conversou muito comigo, orientando-me na escolha. Além dos aspectos espirituais
básicos e determinantes, que não têm o porquê de aqui serem comentados, Mestre
Arashakamá, é o meu Discípulo mais velho, conduz com sua Esposa, Sarcedotisa Yasa
Kahabe, o humilde templo de Pai Pescador das Almas, é pesquisador e historiador sobre a
Umbanda. Precisava mais?
JH: O que você espera para a OUCS a partir dessa mudança?
Thashamara: Na realidade, quem espera é a espiritualidade. Quem
sou eu para esperar alguma coisa. (risos) A partir desta mudança creio que a Umbanda do
Cruzeiro do Sul, no mundo da forma, estará mais adequada ao crescimento que a aguarda e
de modo mais consistente e estruturado. Se hoje, está presente do modo conhecido no
Brasil, Bolívia e Alemanha, ter-se-á a oportunidade de levar este amor e caridade aos
quatro cantos.
JH: Qual será sua relação com a Umbanda a partir desse novo
momento?
Certamente o momento mais esperado, à prática diuturna de amor
e caridade sem o peso da responsabilidade de conduzir uma Raiz, da importância que é.
Assim, terei mais tempo para vivenciar e "experenciar" situações do plano
espiritual e trazer alguma contribuição à Umbanda do Cruzeiro do Sul. Talvez, ou
melhor, certamente, o rótulo de condutor criava uma distância das pessoas. Assim, o
Thashamara poderá ser conhecido sem este rótulo.
JH: O Site Reencontrando o Sagrado, que existe desde 1995, sempre
foi um veículo de divulgação da OUCS e promoveu o encontro de muitos discípulos com o
mestre. Como vai ficar a administração do site a partir de agora?
Thashamara: É importante registrar, que não estou me afastando
da Umbanda do Cruzeiro do Sul, pois são compromissos "muito antigos".
Considera-se portanto, que tenho um vínculo com a Raíz. Assim, aquilo que for de direito
exclusivo do novo condutor da Raíz, especialmente as informações templárias, serão
transferidas à ele. Sem a chancela direta da Umbanda do Cruzeiro do Sul, mas como Cabana
de Pai Antônio. Este site custou muito sangue, suor e lágrimas. Como o mantenho com
muito carinho, enquanto for o desejo e interesse de Mestre Arashakamá, continuo
administrando-o.
JH: Alguma previsão para a Cabana de Pai Antônio passar a
existir no mundo da forma, uma vez que na essência você afirma que ela já existe?
Thashamara: Essa pergunta sempre vem à baila. A Cabana de Pai
Antônio é um paradigma. Um conceito diferente do que estamos acostumados a assistir nos
diversos movimentos filo-religiosos, onde a aparência física traz um conceito frágil de
poder. A sua forma é uma prerrogativa de Pai Antônio. Você bem sabe, inclusive através
das suas pesquisas, que desde a primeira manifestação de Pai Antônio há dezenas de
anos atrás, Ele sempre "bateu na tecla" da simplicidade. Assim, o modelo
adotado, até não sei quando, será o atual, no espaço de floresta que foi determinado.
Ele gostaria que fosse expandido para outros sítios, mas a falta de segurança física
dos dias atuais, não nos deixa confortáveis. Lembra-se daquela Gira que foi realizada na
praia de Copacabana? Gostaria de ampliá-la, mas no momento, o bom senso sugere a
realização de encontros na Reserva do Grajaú. Vale a pena um registro: imagine poder
utilizar-se da magia disponível limpa e pura, sem a necessidade de acessórios. Devido
às questões domésticas que estão sendo resolvidas, pretendo estar disponível para Pai
Antônio, retornando aos encontros mensais programados, neste ou no próximo mês.
Vídeo
da passagem do comando da Umbanda do Cruzeiro do Sul, no Plano Físico |
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